Trabalhando com Gêneros Textuais: Textos Literários e não Literários
Sáb, 12 de Setembro de 2009 02:17

Leila Castro da Silva[1]

 

RESUMO: Neste texto apresento minha experiência de prática em sala de aula com textos literários e não literários, com os gêneros poesia e notícia. Trabalho este realizado através do curso Gestar II. O mesmo foi desenvolvido com a turma da 1ª fase do 3º ciclo da Escola Estadual “Esperidião Marques”, de Cáceres, durante algumas aulas do segundo bimestre do ano letivo de 2009.

 

PALAVRAS-CHAVE: literário - não-literário – poesia – notícia.

 

A escolha do tema deste projeto Trabalhando com gêneros textuais e do título Descobrindo caminhos da poesia, deu-se devido a já termos trabalhado separadamente os gêneros – poesia e notícia, utilizando com o último, jornais impressos e televisivos.  Então, a junção de textos de anúncios reais e fictícios veio ao encontro do que a turma já estava estudando, e assim complementaria e facilitaria o entendimento sobre texto literário e não literário.

Dessa forma, o objetivo maior deste trabalho é, além de levar os alunos a distinguirem as características do texto literário e do não literário, também dar condições e orientações a eles em suas produções de textos, inclusive, para os textos vistos cotidianamente, como os anúncios e propagandas, numa perspectiva discursiva.   

Durante muito tempo no ambiente escolar, os gêneros foram associados apenas à literatura, mas, com as propostas de trabalho dos PCNs, essa idéia foi ampliada e os gêneros são reconhecidos como unidades sociocomunicativas para qualquer finalidade de textos      (Gestar II – TP 3. p.55 )

A proposta do trabalho se inicia com a leitura de dois textos e, em seguida, a elaboração da produção textual. Ao lerem o texto 1, intitulado  “Classificados”,  os alunos  logo lembraram dos anúncios dos jornais e  dos que sempre estão em murais em alguns pontos da cidade  (mercados, farmácias, fotocopiadoras e outros). Após a leitura, houve discussão sobre a forma composicional dos objetos listados e sobre as informações contidas no anúncio, enfim, os alunos perceberam que se tratava de um texto curto e objetivo. Feito esse entendimento, analisaram as questões propostas, e todos tiveram oportunidade de elaborar os seus questionamentos.

Hoje, há um consenso entre os estudiosos para se classificar os textos: tanto os textos literários, quanto os não-literários, são assim classificados por um conjunto de fatores que não podem ser considerados isoladamente, mas dependendo da função maior que um texto exerce na interação, sua classificação pode variar. Os textos considerados literários põem, geralmente, em ressalva, o plano da expressão, da sonoridade, do jogo de imagens, já os textos não-literários (funcionais ou utilitários) têm como finalidade maior a informação (informar, convencer, explicar, responder, ordenar, etc).

 No momento da leitura do texto 2, “Anúncio de Zoornal”, de Sérgio Caparelli,  houve  dúvidas em relação a palavra “Zoornal”, pois, até então era desconhecida de todos. Percebeu-se neste momento que sozinhos tiveram dificuldades em responder às questões propostas, já que o texto tem uma linguagem diferente da que eles usam cotidianamente, pois se trata da linguagem poética.  Mas, com aprofundamento nas leituras e direcionamento da prática de sala de aula, os alunos foram compreendendo e achando interessante o texto, inclusive quando descobriram a formação e significação da palavra “Zoornal”, que se configura em criação do artista, que era a dúvida no início da leitura.                             

A literatura é chamada de ficção, isto é, imaginação de algo que não existe  particularizado na realidade, mas no espírito de seu criador. O objeto da criação poética não pode, portanto, ser submetido a verificação extratextual. A literatura cria o seu próprio universo, semanticamente autônomo em relação ao mundo em que vive o autor, com seus seres ficcionais, seu ambiente imaginário, seu código ideológico, sua própria verdade, animais que falam a linguagem humana, tapetes voadores, etc (Salvatore, 1995:19)

Ao analisarem os dois textos, perceberam as diferenças e semelhanças existentes entre eles, constataram através da linguagem, o que faz parte do real e o que faz parte do imaginário. Que o primeiro texto trata de um anúncio real, com objetos verdadeiros, e com objetivos verdadeiros e que o segundo trata-se de um anúncio ficcional em que o autor brinca com as palavras/imagens, explorando-as para proporcionar prazer ao leitor e ouvinte.

Neste sentido, é valioso lembrar a importância da leitura de gêneros diversificados, que possibilitem aos estudantes maior conhecimento textual, isto é, levá-los, a saber, que “Do mesmo modo que desenvolvemos uma competência lingüística quando apreendemos o código lingüístico, desenvolvemos uma competência sociocomunicativa quando apreendemos comportamentos lingüísticos”. (Gestar II. 2008:24). Toda nossa comunicação se dá por textos. E todo texto se realiza em um gênero, e como ele é considerado uma unidade sociocomunicativa, a sua sistematização no aprendizado e também no ensino leva em consideração diversas características, essas podem ser ligadas ao tema, ao modo de organizar as informações, ou ao uso que se faz do texto nas práticas sociais e discursivas.

Enriquecendo ao parágrafo acima, Marcuschi afirma que: “ Os gêneros textuais são os textos que encontramos em nossa vida diária e que apresentam padrões sociocomunicativos...são formas textuais escritas ou orais bastante estáveis, histórica e socialmente situadas”. (2008:155).

Ao criarem seus anúncios, os alunos observaram quais verbos (modo e tempo) iriam usar, quais características dariam aos objetos anunciados, buscaram no dicionário a ortografia de algumas palavras, dialogaram bastante e também  deram boas risadas, pois faziam várias combinações, rimas etc. Percebeu-se que foi uma ótima experiência, houve interesse dos alunos, principalmente, no momento de criarem os textos – anúncios – reais e ficcionais, pois,  é também pelo estudo e pela prática de textos que os estudantes poderão ser bem sucedidos no desempenho lingüístico.

Neste sentido, é coerente lembrar o que diz os PCNs (1998:24) em relação à seleção  dos textos: “Os textos  a serem selecionados são aqueles que, por sua características e usos, podem favorecer a reflexão crítica, o exercício de formas de pensamento mais elaboradas e abstratas, bem como a fruição estética dos usos artísticos da linguagem, ou seja, os mais vitais para a plena participação numa sociedade letrada”.

Portanto, acredito que, ao trabalhar com os gêneros textuais, despertou-se nos alunos a consciência de que nos comunicamos por textos, por gêneros, e não simplesmente por palavras isoladas, que exercemos nosso trabalho na linguagem quando construímos nossos próprios textos a partir de escolhas lingüísticas que condizem com a nossa história de vida, experiências e propósitos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

PROGRAMA GESTÃO DA APRENDIZAGEM ESCOLAR – Gestar II. Língua Portuguesa: Caderno de Teoria e prática. Brasília; Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2008.

D’ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto 1. Prolegômenos e teoria da narrativa. São Paulo editora Ática, 1995.

PARÂMETROS CURRICULARES NACONAIS. 2. Língua Portuguesa: terceiro e quarto ciclo do ensino fundamental: língua portuguesa/Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 1998.

MARCUSCHI, Luiz Antonio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.

 

 



[1] Professora da E. E. “Esperidião Marques”, Cáceres/MT.

 

 

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