O Uso do Gênero Verbetes em Sala de Aula
Ter, 15 de Setembro de 2009 14:13

                                                              Zenil Josefa da Silva[1]

Resumo

Relatório feito com o objetivo de expor experiências vivenciadas em salas de aulas de terceiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual Frei Ambrósio, referentes a estudos sobre verbetes de dicionários, enciclopédias e glossários, ocorridos durante o 1º semestre de 2009, em cumprimento às exigências do Projeto Habilidades e Competências de Leitura e Escrita: Uma Necessidade Formativa em Todas as Áreas, oferecido pelo CEFAPRO/Cáceres. 

Palavras-chave: leitura, escrita, reflexão. Gêneros textuais. Verbete 

      O presente trabalho é um relato de experiências vivenciadas com alunos de duas salas de aulas de terceiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual Frei Ambrósio, localizada em Cáceres-MT, em cumprimento à proposta feita pelas professoras do CEFAPRO/Cáceres, Eliane Maria Viana da Costa Ferreira e Márcia Elizabeti Machado de Lima, durante a realização do Projeto Habilidades e Competências de Leitura e Escrita: Uma Necessidade Formativa em Todas as Áreas, como parte da proposta de formação continuada para professores da rede estadual.

      Seguindo a proposta dos PCNs, de fundamentar o ensino de Língua Portuguesa nos gêneros textuais, a equipe de Linguagem do CEFAPRO organizou este projeto para dar suporte aos professores das redes estadual e municipal, no trabalho em sala de aula com os gêneros textuais, tendo como base teórica o livro Gêneros Textuais e Ensino, o qual, no primeiro capítulo Gêneros textuais: definições e funcionalidade, Luiz Antônio Marcuschi apresenta a diferenciação entre gênero textual e tipo textual, desfazendo assim, equívocos  relacionados a essas nomenclaturas. Na sequência, são abordados diversos gêneros textuais e o enfoque que cada um recebe na mídia.

      A meu grupo foi designado que se estudasse com mais afinco o capítulo “Verbetes: um gênero além do dicionário”, escrito por Ângela Paiva Dionísio, a fim de que fizéssemos o trabalho em duas etapas: na primeira, a socialização dos estudos para os colegas professores e na segunda, a transposição didática do mesmo. 

      Nesse texto a autora analisa a utilização desse gênero textual na mídia escrita, tomando como base as revistas Seleções, Caras, SuperInteressante, Veja, Isto É  e Todateen, publicadas entre novembro de 2001 e fevereiro de 2002, mostrando como os verbetes extrapolam as barreiras dos dicionários e enciclopédias, se inserindo nas propagandas, artigos, entre outros; mantendo a função social de instruir o leitor.

      Cumprida a primeira tarefa, passamos para a etapa seguinte – a transposição didática - ou seja, aplicar em sala de aula, as sugestões que surgiram durante o curso. Para isso escolhi duas salas de terceiro ano do Ensino Médio da escola em que trabalho - Escola Estadual Frei Ambrósio - para ensinar o gênero verbete. Iniciamos por pesquisar em dicionários diversas palavras, buscando, além de seus significados denotativos e conotativos, o sentido das abreviações ali presentes. Fez-se necessário também desfazer equívocos relacionados à pronúncia do próprio termo verbete /ê/ o qual era comumente dito verbete /é/, conceituar o termo (verbete) e apresentá-lo como sendo mais um gênero textual.  Houve surpresas e recusas em aceitar o verbete como texto, pois muitos ainda têm como texto apenas aqueles com introdução, desenvolvimento e conclusão e com elementos coesivos bem visíveis.

    Apresentei-lhes, então, o conceito de colônia discursiva que Dionísio, citando Hoey, nos traz:

Dicionários, enciclopédias, glossários são colônias discursivas, na terminologia de Hoey, ou seja, discurso cujas partes componentes não derivam seus significados das sentenças em que estão inseridas. ( Dionísio, 2007) 

     Segundo a mesma autora, “para se ler verbetes, recorre-se ao scanning: estratégia que auxilia a identificação de informações específicas do texto: ler unidades isoladamente”.

      Para mostrar que o verbete é um texto muito presente no dia-a-dia da sala de aula, buscamos em diversos livros didáticos os glossários e em José De Nicola (2009), que já trabalha com a noção de gênero textual e apresenta o verbete como mais um deles, ao lado do diário, editorial, da carta de leitor, entre outros.

      Cumprida a tarefa de ler verbetes, era indispensável produzir verbetes. Mas como fazer? De que forma? Com que finalidade? Apenas para cumprir mais uma tarefa monótona e vazia?  Não. Essa não é a finalidade da escrita. E para enriquecer esse pensamento trazemos Guedes e Souza, que afirmam:

No que se refere à produção de texto, no entanto, não se trata de ensinar a escrever uma notícia de jornal. Não se trata de ensinar a escrever uma crônica, nem um conto, nem um relatório: não se trata de ensinar a forma de um determinado tipo de texto e/ou de avaliar um texto produzido por um aluno pela sua capacidade de obedecer ao cânone do gênero, de reproduzir uma fôrma. Trata-se de solicitar ao aluno que escreva para contar o que viu como viu como viveu a experiência de ver o que viu e para nos mostrar como acha que nós deveríamos ter vivido o que ele viu se também tivéssemos visto. (Guedes e Souza, 2007)

     Partindo desse princípio, (de solicitar que o aluno conte o quê e como viu ou viveu determinada experiência) pedimos aos alunos que escrevessem para nos contar o que é ficar. Para nos informar o(s) significado(s) dessa gíria que circula no mundo dos jovens e adolescentes e que nós, pais e professores, não entendemos muito bem.

     Tanto os alunos do 3º ano A, quanto os do  3º ano B, ficaram muito entusiasmados com a possibilidade de escrever sobre um assunto que eles dominam e por esse motivo não ofereceram resistência em fazer e refazer os textos, até obter o produto final.

     Alguns alunos iniciaram seus textos contando como era o namoro de antigamente e sua evolução até chegar aos nossos dias com o famoso ficar. Outros já começaram descrevendo o termo. Uns preferiram conceituar todas as gírias usadas, dentro do próprio texto; outros optaram por incluir um glossário ao final. Para alguns o ficar é apenas um “namorico” passageiro; para outros é algo mais apimentado, mas sem compromisso; enquanto que para uma minoria o ficar pode ser o início de um namoro sério “pra casar”.

     O interessante de se observar foi, também, a facilidade com que os jovens contam suas aventuras, escrevendo seus textos na primeira pessoa, se colocando como autor (a) de determinados episódios que eu diria “censuráveis”, dando-nos certeza de que faltam a eles pessoas com quem se abrir, em quem confiar seus segredos e angústias. Demonstra, também, falta de limites e demasiada permissividade. Talvez isso se justifique pelo corre-corre da vida moderna, pelas mudanças de valores e pelo novo formato de família que temos atualmente. Mas esse assunto renderia uma discussão à parte, não cabendo um maior aprofundamento neste texto.

     Concluindo, penso que a estratégia de se trabalhar esse assunto com essas salas de adolescentes deu certo, principalmente no tocante à produção textual. O tema escolhido despertou o interesse da turma, havendo assim bons textos, e posteriormente muitos quiseram ler para a classe, dando origem a um acalorado debate, pois eles escreveram “para contar o que viram como viram, como viveram a experiência de ver o que viram e para nos mostrar como acham que nós deveríamos ter vivido o que eles viram se também tivéssemos visto”. Ao final do trabalho todos entenderam que o verbete pode e deve ir além dos dicionários e enciclopédias e se inserir nos textos do cotidiano, mantendo a função social de instruir o público leitor. 
 
 
 

BIBLIOGRAFIA 

BRASIL. Secretaria de Educação. 1998. Parâmetros Curriculares Nacionais: 3º e 4º ciclos: Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEF. 
 

Dionísio, Angela Paiva Et. Al. 9Orgs). Gêneros textuais e ensino. 5ª ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007. 

NEVES, Iara Conceição Bitencourt Et. Al. (Orgs). Ler e escrever: compromisso de todas as áreas. 8ª Ed. Porto Alegre: Ed. Universidade UFRGS, 2007. 

DE NICOLA, José. Português: Ensino Médio, vol.3. São Paulo: Scipione, 2009. 
 
 

 



[1] Professora da E. E. “Frei Ambrósio”.

 

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