DIVERSIDADE E EDUCAÇÃO
Sex, 10 de Dezembro de 2010 14:16

Erykson Thyago Pereira da Silva [1]

 

RESUMO: A diversidade é uma das características do Brasil que surgiu da combinação de mais de uma composição étnica, no entanto, falar em diversidade é considerar que pessoas diferentes sejam consideradas como iguais, sem distinção de gênero, crença, cor, raça e padrão social, dentre deste aspecto entra em cena a discriminação que é o tratamento desigual de indivíduos com iguais características baseado no grupo, classe ou categoria social a que eles pertencem e constitui-se num evidente desvio do ideal de igualdade e de oportunidade. Consequentemente a discriminação será sempre uma fonte de preocupação social, com efeitos prejudiciais sobre o nível de bem-estar da sociedade. A introdução da discriminação na economia e o impacto sobre o grau de desigualdade é aumentada paulatinamente e, se na economia sem discriminação todos os indivíduos recebem a mesma renda, o surgimento da discriminação seguramente leva a um aumento no grau de desigualdades em seus diferentes níveis. Este, no entanto, não é necessariamente o efeito da discriminação que aflige o social e o cultural.

PALAVRAS-CHAVE: diversidade. Igualdade. Educação.

 

1. Considerações Iniciais

O tema diversidade, logo nos remete a uma infinita quantidade de contra-sensos, opiniões e realidades construídas por uma vasta linha do tempo, por povos, indivíduos e pensamentos diferentes, mas que de modo geral contribuíram para perdurar um ideologismo, muitas das vezes, excludente e mistificador.

Existem vários momentos históricos com fatos marcantes sobre os paradigmas existentes quanto à diversidade presente na educação. Contudo, o que não pode abster do foco e da realidade atual, quanto ao sentido do que é ter liberdade na sociedade do século XXI.

Conforme mencionava Rosseau, “todos os homens nascem livres, porém estão presos por todos os lados”, com esta denotação observa-se que os padrões socioeconômicos e culturais delimitam de certo modo o agir do homem enquanto ser, formando-se pensamentos e padrões cristalizados na forma de ser e de agir.

Entretanto, o ponto fundamental é analisar como fazer para que se possa construir uma sociedade onde não haja delimitações entre minorias e maiorias e até mesmo problematizar quem realmente são as minorias e quem pertence à maioria.

Assim, falar em diversidade é analisar que pessoas diferentes, com costumes, crenças, culturas e situações sociais controversas possuem uma coisa em comum, são seres humanos, entretanto todos estes elementos surgem com diversas discussões na escola e na sala de aula.

Vale ressaltar que, cada indivíduo possui uma identidade fruto do acúmulo de experiências pelas quais passou durante sua vida e dos valores que são repassados pela família, pela sociedade e, por fim, pela escola. No entanto, a escola é um espaço onde há quebra de algumas barreiras que se perduram durante séculos, como é o caso da questão dos povos indígenas e negros se refazerem. Afinal, não é possível esquecer que estes povos brasileiros foram excluídos desde a colonização do Brasil pelos portugueses, com seu estabelecimento nestas terras, reconhecendo-as como colônia, onde estes povos sofreram com a domestificação e escravidão.

Outro ponto importante de se mencionar é a questão da mulher, dos homossexuais e outros grupos que sofrem com o preconceito que se perdura em uma sociedade que vive em alguns aspectos amarradas por costumes tradicionais, afinal, todos são seres semelhantes, mas nem por isso tem os mesmos acessos à educação de qualidade e emprego, por exemplo, muitas vezes, chegam até a ter uma situação de remuneração inferior a outros grupos da população.

Logo, uma educação que respeita a diversidade colocada aos educadores um grande desafio a ser desmistificado, pois compreende as diferenças econômicas, sociais, raciais etc. Assim, é necessário buscar um saber crítico que possam interpretá-las sem ocasionar transtornos ainda maiores. Para tanto, é necessário revisar os conceitos e conhecimentos que estão permeando o saber escolar e investir na formação continuada do professor, com vistas a formalizar um currículo multicultural com o intuito de combater preconceitos e discriminações.

 

2. Diversidade: um desafio para a formação docente

A questão social desde o início do século XX até os dias atuais pouco mudou, principalmente em relação à população negra, as desigualdades sociais e econômicas existentes entre brancos e negros no Brasil, se traduzem em um surpreendente quadro de desigualdade racial.

Dentro deste contexto, o movimento negro vem denunciando com freqüência o tratamento discriminatório recebido, lutando não só para eliminar as políticas de inferiorização com respeito às diferenças raciais, mas também pela igualdade de oportunidade, que é a ética da diversidade.

Afinal, em pleno século XXI, ainda não são muito raros os casos de discriminação contra o negro, seja ela social, cultural e até mesmo do saber. Muitos impregnam na cor um elemento decisivo para agir de modo medíocre sem respeito ao seu semelhante.

Ser negro ou ser mestiço significa ter uma maior probabilidade de ser recrutado para posições sociais inferiores. Isto, numa estrutura social que já é profundamente desigual. Então, no meu entender, o vínculo entre raça e classe é exatamente esse: raça funciona como mecanismo de seleção social que determina uma medida bastante intensa qual a posição que as pessoas vão ocupar (HASEMBALG, 1991, p. 46).

Se analisarmos dados estatísticos de diferentes órgãos, poderá ser comprovado que há uma diferença muito relevante entre o branco e o negro, nos mais diversos aspectos, afinal, vive-se ainda hoje em uma sociedade estereotipada, com conceitos e modelos de superioridade e inferioridade.

Logo, a educação tem um papel preponderante não só de conhecer os mecanismos da dominação cultural, econômica, social e política, ampliando os conhecimentos antropológicos dos alunos e da sociedade, mas também de perceber as diferenças étnico-culturais sobre essa realidade cruel e desumana na qual estamos inseridos.

Para atender esta necessidade, documentos e leis surgem, com o intuito de aplacar a diferença encontrada na diversidade, tais como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 9394/96), os Parâmetros Curriculares Nacionais e outros:

A aplicação e o aperfeiçoamento da legislação são decisivos, porém insuficientes. Os direitos culturais e a criminalização da discriminação atendem aspectos referentes à proteção de pessoas e grupos pertencentes às minorias étnicas e culturais. Para contribuir nesse processo de superação da discriminação e de construção de uma sociedade justa, livre e fraterna, o processo há de tratar do campo social, voltados para a formação de novos comportamentos, novos vínculos, em relação àqueles que historicamente foram alvos de injustiças, que se manifestam no cotidiano (BRASIL, 1997, p. 120).

Entretanto, os documentos oficiais como a LDB são apenas um pequeno passo para um avanço esperado, afinal, como o próprio documento estabelece, a educação é um direito de todos, no entanto, esse direito deve ser assegurado pelos diversos seguimentos da sociedade, sendo assim, para cumprimento destas normativas que visam a igualdade na diversidade é necessário que a escola, junto com os alunos, pais e sociedade civil organizada pense em maneiras de se trabalhar esses temas.

No entanto, faz-se necessário o investimento em formações que levem aos profissionais da educação o conhecimento e o reconhecimento dessas temáticas, para que possam trabalhá-las sem insegurança, garantindo a sua real finalidade.

Há necessidade imperiosa da formação de professores no tema Pluralidade Cultural. Provocar essa demanda específica na formação docente é exercício de cidadania. É investimento importante e precisa ser um compromisso político pedagógico de qualquer planejamento educacional /escolar para formação e/ou desenvolvimento profissional dos professores (BRASIL, 1997, p. 123).

Trabalhar igualmente as diferenças não é uma tarefa fácil para o professor, porque para lidar com elas é necessário compreender como a diversidade se manifesta e em que contexto ela é exercida. Portanto, pensar uma educação escolar que integre as questões étnico-raciais significa progredir na discussão a respeito das desigualdades sociais, das diferenças raciais e outros níveis e principalmente no direito de ser diferente, e neste aspecto possibilita a ampliação das propostas curriculares, buscando uma educação mais democrática e que possa ter reflexos evidentes na sociedade.

Crianças brasileiras de todas as origens étnico-racias têm direito ao conhecimento da beleza, riqueza e dignidade das culturas negro-africanas. Jovens e adultos têm o mesmo direito. Nas universidades brasileiras, procure, nos departamentos as disciplinas que informam sobre a África. Que silêncio lamentável é esse, que torna invisível parte tão importante da construção histórica e social de nosso povo, e de nós mesmos? (RIBEIRO, 2002, p. 150).

Talvez, se nos currículos escolares já tivessem adotado a algum tempo enfatizar as riquezas, principalmente dos povo africanos, sobre a suas criações, invenções e manifestações culturais, muitos negros teriam maior prazer em se reconhecer como tal e certamente os preconceitos e o respeito a diversidade seria muito maior.

Dentro destas perspectivas, analisa-se que o melhor caminho é revogar as ideias e pensamentos fundamentalistas sejam eles quais forem, não a ponto de causar discriminação ou conversão/adaptação a outros estilos, outras culturas etc, mas sim que se possa construir um ambiente de convivência e respeito mútuo entre todos os cidadãos.

No entanto, como poder mudar as práxis docentes existentes? Para que isso possa acontecer o caminho mais curto é o educador ser capaz de reconhecer a diversidade e a diferença para poder transformar sua prática em sala de aula.

Os alunos, não podem ter sua capacidade avaliada por meio de sua cor, raça, gênero, etnia ou outros critérios que não sirvam de parâmetros de ensino e aprendizagem do educando. Outro aspecto que é bem analisado por Silva (20001), é que por muitas vezes, a questão das raças e de etnias, são lembradas apenas em datas comemorativas ou por meio de festividades exóticas e/ou folclóricas. Assim:

Essas narrativas celebram os mitos da origem nacional, confirmam o privilégio das identidades dominantes e tratam as identidades dominadas como exóticas ou folclóricas. Em termos de representação racial, o texto curricular conserva, de forma evidente as marcas da herança colonial. O currículo é, sem dúvida, entre outras coisas, um texto racial (SILVA, 200, p. 102).

Observa-se que, as amarras que possibilitam o quadro da diversidade no Brasil de hoje, sobrevém de tempos remotos, que preservam a cultura ainda adotada no período colonial. Muito embora os avanços sejam inegáveis, ainda se tem um longo caminho a percorrer, enquanto sociedade de descendência em grande parte afro-brasileira, conforme pode ser observado a seguir em Gonçalves e Silva (1996).

Professores, fazemos parte de uma população culturalmente afro-brasileira, e trabalhamos com ela; portanto, apoiar e valorizar a criança negra não constitui em mero gesto de bondade, mas preocupação com a nossa própria identidade de brasileiros que têm raiz africana. Se insistirmos em desconhecê-la, se não a assumimos, nos mantemos alienados dentro de nossa própria cultura, tentando ser o que nossos antepassados poderão ter sido, mas nós já não somos. Temos que lutar contra os preconceitos que nos levam a desprezar as raízes negras e também as indígenas da cultura brasileira, pois, ao desprezar qualquer uma delas, desprezamos a nós mesmos. Triste é a situação de um povo, triste é a situação de pessoas que não admitem como são, e tentam ser, imitando o que não são (IDEM, 1996, p. 175).

Observa-se no recorte acima que o autor menciona com clareza a questão afro-brasileira, e da alienação em se menosprezar ou ver o trabalho sobre este aspecto da diversidade sob um olhar de indiferença, sendo assim, deve-se ser analisado e avaliado não apenas a questão do negro no âmbito da diversidade, mas sim de muitos outros grupos que se enquadram nesta perspectiva, como mulheres, homossexuais e outros.

 

3. Considerações Finais

Embora saibamos que seja uma tarefa se não impossível, muito difícil uma escola igual para todos, é possível a construção de uma escola que reconheça que os alunos são diferentes, que possuem uma cultura diversa e que repense o currículo, a partir da realidade existente dentro de uma lógica de igualdade e de direitos sociais, devendo reconhecer que a exclusão escolar não está relacionada somente com o fator econômico, ou seja, por ser um aluno de origem humilde e/ou pobre, mas também pela sua origem étnico-racial.

Portanto, é necessário reconhecer que o Brasil é um país pluriétnico e racial e que todos os agentes envolvidos na educação dos brasileiros, não somente os professores, mas também a família e a sociedade podem e devem contribuir para a não permanência de culturas preconceituosas.

Ao mesmo tempo, deve reconhecer que muitos educadores e pesquisadores buscam fundamentar seus pontos de vista sobre a diversidade de modo a garantir uma “política de tolerância”, entretanto, deve-se perceber que essas posturas devem ir ao encontro da postura dos profissionais da educação, tornando-os mais hábeis para lidar com as diferenças em sala de aula.

Contudo, valorizar o multiculturalismo e o direito de cada cidadão de ter um ensino que promova uma melhoria na qualidade de vida, é um caminho louvável para construção de um país mais igual e justo, que olhe para as minorias não apenas em datas comemorativas, como o dia do índio, o dia da consciência negra, o dia da mulher, entre outros. Afinal, comemorar essas datas significa que muitas conquistas já foram alcançadas, mas ao mesmo tempo há inferiorização destes povos e/ou grupos no contexto do século XXI.

 

4. REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei n. º 9.394, de 20.12.96: estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília: [s.n.], 1996.

_____. Parâmetros Curriculares Nacionais. Secretaria de Educação Fundamental – Brasília- MEC / SEF, 1997.

GONÇALVES e SILVA, Petronilha Beatriz. Prática do racismo e formação de professores. In: DAYRELL, Juarez. Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1996.

HASENBALG, Carlos A. Desigualdades sociais e oportunidade educacional. A produção do fracasso em Cadernos de Pesquisa, nº 63, nov. 1987, pp.24-26.

RIBEIRO, Romilda Iyakemi. Até quando educaremos exclusivamente para a branquitude? Redes-de-significado na construção da identidade e da cidadania. In: POTO,M R S, CATANI, A M, PRUDENTE, C L e GILIOLI, R S. Negro, educação e multiculturalismo: Editor Panorama, 2002.

SILVA, Ana Célia da. Desconstruindo a discriminação do negro no livro didático. Salvador. EDUFBA, 2001.


[1] Professor graduado em Geografia pela Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT, atuando na Coordenação Pedagógica da “Escola Estadual São Geraldo”, município de Porto Esperidião/MT.

 

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