Rio Paraguai na cidade de Cáceres - Mato Grosso: uso e ocupação no entorno
Sex, 28 de Outubro de 2011 23:11

Ademir Barbosa[1]

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Renilda Miranda Cebalho Barbosa[2]

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Gustavo Roberto dos Santos Leandro[3]

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RESUMO: O estudo em pauta objetivou descrever o uso e ocupação da margem esquerda do rio Paraguai, compreendendo o trecho entre a confluência da baía do Malheiros com o rio e a ponte Marechal Rondon em Cáceres-MT. Diante disso fez-se necessário analisar a importância do recurso hídrico para as atividades desenvolvidas, abordando as condições ambientais estabelecidas no espaço urbanizado. Os procedimentos metodológicos para a elaboração e sistematização do estudo, se deram inicialmente através de levantamento bibliográfico sobre a temática. Nos trabalhos a campo realizou-se descrição do uso e ocupação da margem esquerda do rio Paraguai, através de observação, aplicação de questionários e registros icnográficos. Para melhor sistematização do trabalho, a área de estudo foi dividida em trechos. O segmento encontra-se no alto curso do rio Paraguai com extensão de 1000 metros. Nos últimos anos, ocorreu um crescimento expressivo no uso e ocupação do entorno, sobretudo a expansão de bairros limítrofes a margem esquerda do rio Paraguai com a inserção de áreas residenciais e comerciais.

 

PALAVRAS-CHAVE: Cáceres-MT, rio Paraguai, uso e ocupação, erosão de margens.

 

1. Introdução

O rio Paraguai na região de Cáceres-MT é caracterizado por um segmento em que o canal e a planície fluvial estão bem definidos, sendo o principal canal de escoamento do Pantanal. Sua nascente principal encontra-se nas bordas do Planalto dos Parecis, na cota altimétrica de 480 m, no município de Diamantino. Percorre a depressão do rio Paraguai com altitudes, que variam de 98 a 280m (SOUZA, 2004).

Documentos etnográficos sobre a região mostram que a navegação do rio Paraguai iniciou com o uso de pequenas canoas feitas de troncos de árvores e movidas a remo, utilizadas pelos índios para se locomoverem para outros locais. O desenvolvimento da navegação ocorreu a partir do século XVI, no momento em que os europeus iniciaram a colonização na América, época em que expedições espanholas navegaram com embarcações maiores pelo rio Paraguai. No século XVIII, o rio Paraguai era usado para o transporte de produtos necessários ao abastecimento das fazendas e do núcleo urbano (Cáceres), também para o escoamento da produção das fazendas ribeirinhas (carne bovina) e do ouro proveniente da capital do Estado, Vila Bela da Santíssima Trindade    (SOUZA, 2004).

A ocupação da planície iniciou-se no século XVIII, com o surgimento do povoado de Cáceres, em 1772, à margem esquerda do rio Paraguai. Atualmente, no perímetro urbano de Cáceres, as margens encontram-se totalmente ocupadas por ruas, residências, áreas e recreação, comércio, indústrias, ancoradouros e a área portuária.

Na última década, ocorreu um crescimento expressivo da navegação, principalmente pelo uso de barcos de pequeno e médio porte, bem como a navegação com grandes embarcações e comboios de chatas para transporte de grãos.

Sendo assim, o presente estudo objetivou descrever o uso e ocupação da margem esquerda do rio Paraguai, compreendida entre a confluência da baía do Malheiros com o rio Paraguai e a ponte Marechal Rondon na cidade de Cáceres - MT.

 

2. Material e Método

A área de estudo compreende o segmento do perímetro urbano de Cáceres – MT no segmento do rio Paraguai entre a confluência com a baía dos Malheiros e a ponte Marechal Rondon. Encontra-se entre as coordenadas geográficas 16°03’30’’ e 16°05’00’’ latitude Sul e 57°41’00’’ e 57°42’00’’ longitude Oeste (Figura 1).

 

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Figura 1: Localização da área de estudo. FONTE: BARBOSA, 2008.

2. 1 - Procedimentos metodológicos

Levantamentos bibliográficos

Levantamentos e fichamentos de obras que tratam da temática, como teórica para o estudo.

Trabalho de campo

Para reconhecimento da área de estudo foi necessário realização de trabalho de campo, onde foi feita análise ambiental, através de observação, descrição da área, levantando informações sobre uso e ocupação da margem esquerda do rio Paraguai e o grau de degradação.

 

3. Resultados e Discussões

O homem modifica a paisagem para construção de casas, edifícios, fábricas, indústrias e dentre outros, com esse processo ocorre um desequilíbrio natural, provocando com isso enchentes urbanas que são advindas com o aumento da precipitação, vazões dos picos de cheia e estrangulamento das seções transversais do rio, causados pelas obras de canalização, assoreamento, aterro e lixo nas zonas urbanas (CUNHA e GUERRA, 1996).

Dentre as modificações geradas pela ocupação do espaço urbano, e que são responsáveis por importantes alterações no ciclo hidrológico nessas áreas, destaca-se a impermeabilização do terreno, através das edificações e da pavimentação das vias de circulação (BOTELHO, 2004).

Segundo Tucci (1995), a falta de infraestrutura faz sentir-se sobre outros itens relacionados aos recursos hídricos: abastecimento e tratamento de esgotos.  A divisão da margem esquerda em trechos para estudo permitiu descrever a situação atual de cada ponto, principalmente no que refere ao uso e aos impactos associados. Sendo possível observar os mais diversas atividades desenvolvidas (áreas com residências, comércios, ancoradouros),  além da contaminação do rio com dejetos provenientes do uso incorreto da rede pluvial da cidade.

 

4. Ocupação das margens do rio Paraguai e impactos associados

O segmento do rio Paraguai analisado possui aproximadamente 1 km de extensão, compreendendo entre a baía do Malheiros e a Ponte Marechal Rondon. O rio Paraguai caracteriza-se na área estudada com padrão de canal meandrante, com curvas sinuosas e semelhantes entre si, com trabalho contínuo de escavação na margem côncava e de deposição na margem convexa e em virtude desse fator, a margem estudada apresenta grande mobilidade (margem côncava). O nível da margem (barranco) é mais alto em relação ao nível da água, a calha apresenta-se mais profunda, com maior velocidade do fluxo e, pôde ser constatado que a vegetação ciliar deu lugar as edificações, decorrentes das ações antrópicas e  que  esses  fatores  coadunam  para  a erosão fluvial (Figura 2).

 

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Figura 2: Vista parcial da área central de Cáceres onde se observa muro de arrimo e erosão marginal. Fonte: GUNNER, S/D.

 

A divisão da margem esquerda em trechos permitiu descrever a situação atual encontrada em cada trecho, principalmente no que refere ao uso e os impactos associados. Sendo possível observar os mais diversos tipos de uso, tais como: captação d´água para abastecimento; áreas residenciais; comércios; ancoradouros; além da atividade portuária.

 

Trecho 1

Neste trecho (área central) a paisagem encontra-se totalmente descaracterizada, as margens são ocupadas por ancoradouros, residências, restaurantes, áreas de lazer e áreas com calçamento para acesso das embarcações. Na face do barranco, na tentativa de conter a erosão, foram realizadas obras de engenharia (muro de arrimo). Os muros de arrimo são de concreto ou de blocos de rochas. As grandes embarcações de transporte de turistas, como os barcos hotéis, se utilizam desses ancoradouros para sua permanente, para embarque e desembarque de seus usuários, além de produtos e mercadorias (Figura 3):

 

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Figura 3: Margem esquerda do canal secundário (área central), rio Paraguai, ao fundo embarcações ancoradas. Fonte: GUNNER, S/D.

 

Trecho 2

O trecho dois refere-se ao local onde se realiza a captação d’água para abastecimento da população, sob responsabilidade da empresa terceirizada Nortec. A captação de água para tratamento e distribuição à população é feita abaixo dos principais dutos de dejetos e detritos oriundos da precária rede pluvial da cidade que por sua vez tem como função inicial o escoamento das águas de precipitação. A rede pluvial da cidade deveria ser para o escoamento das águas pluviais, no entanto, de forma clandestina é utilizada para conduzir o esgoto urbano para o rio Paraguai (Figura 4).

 

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Figura 4:  (a) e (b) – Captação de água no rio Paraguai. Fonte: BARBOSA, 2008.

 

Trecho 3

Neste trecho é evidente a erosão fluvial, sendo o processo, acelerado pelo escoamento superficial. A pavimentação asfáltica no bairro São Miguel contribuiu para o direcionamento e aumento do fluxo das águas pluviais para o rio Paraguai. Moradores do local perderam suas casas e outros já estão com seus quintais comprometidos devido à erosão marginal. A área pode ser considerada como área de risco, sujeita a desmoronamentos (solapamento basal). Verifica-se que foram construídas proteções nas margens, mas encontram-se quase totalmente retiradas devido ao grande fluxo de água, principalmente no período chuvoso (Figura 5).

 

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Figura 5:  (a) e (b) – Erosão marginal  e muro de arrimo no  rio Paraguai. Fonte: BARBOSA, 2008.

 

As alterações das margens são evidentes, pois as ações antrópicas dão uma nova caracterização a estas transformando a paisagem natural, o que, conseqüentemente, compromete o ambiente. A mata ciliar foi substituída por uma vegetação rasteira que não oferece sustentabilidade para o solo. A paisagem em toda a área foi modificada pelas obras de engenharia, através da construção de ancoradouros, galpões, canalizações, diques marginais de contenção, entre outros. A erosão das margens pode estar associada a dois fatores: a própria dinâmica do rio, principalmente pela erosão hidráulica devido o contato das ondas com a margem ou pode também estar associada a movimentação das embarcações no rio; o outro fator está vinculado ao escoamento superficial nas margens provocado pelas águas pluviais, originando processos erosivos, o que influi para o aumento da carga de sedimentos no rio.

 

5. Considerações Finais

Neste estudo constatou-se que Cáceres, como inúmeras outras cidades, não teve em sua  formação  inicial  um  planejamento  ordenado,  e  tão  pouco  teve  consideração para  a importância da preservação das margens do rio Paraguai, que  decorrente  da  ação  humana (transformadora)   vem   provocando   modificações   acentuadas   na  paisagem,  causando desequilíbrio e comprometimento ambiental.

A ocupação urbana interfere na dinâmica  das águas, bem como em sua qualidade, pois as principais fontes de poluição referem-se ao esgoto,  a  grande quantidade  de lixo  (resíduos  sólidos),  problemáticas   estas,  que  podem  ser observadas na cidade de Cáceres, a partir das alterações promovidas  nas margens do rio Paraguai, sobretudo a esquerda onde se implantou o perímetro urbano do município. Ressalta-se que a contaminação desse recurso hídrico assume caráter de questão de saúde pública, pois o local de captação para abastecimento da cidade encontra-se abaixo dos locais onde são lançamentos poluentes de ordem residencial, hospitalar e comercial.

Ressalta-se que a contaminação desse recurso hídrico assume caráter de questão de saúde pública, pois o local de captação para abastecimento da cidade encontra-se abaixo dos locais onde são lançamentos poluentes de ordem residencial, hospitalar e comercial. Constatou-se ainda, que alguns segmentos se caracterizam como áreas de risco por sofrerem processo natural de erosão fluvial maximizado pelo uso inadequado do solo.
Sendo assim, frente ao exposto e para se compreender a complexidade dos problemas apontados, é necessário que a população cacerense, a comunidade acadêmica, juntamente com os gestores públicos do município e até mesmo a iniciativa privada, compreenda o rio Paraguai, como um sistema dinâmico, sujeito as mudanças e que a intervenção humana sem responsabilidade e inconseqüente poderá desencadear problemas futuros imprevisíveis e irreparáveis. Questões essas que precisam ser levadas em consideração, enquanto planejamento para  o município de Cáceres.

 

6. Referências Bibliográficas

BOTELHO, R. G. M.; SILVA, A. S. Bacia hidrográfica e qualidade ambiental In: VITTE, A. C.; GUERRA, A. J. T. (org.) Reflexões sobre a geografia física no Brasil, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2004. p. 153 -192.

CUNHA, S. B.; GUERRA, A. J. T. Degradação ambiental. In: Guerra, A. J. T.; Cunha, S. B. (orgs.). Geomorfologia e Meio Ambiente. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 337-379.p

SOUZA, C. A. Dinâmica do corredor fluvial do rio Paraguai entre a cidade de Cáceres e a Estação Ecológica da ilha de Taiamã – MT. Tese (Doutorado em Geografia) Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. 2004. 173 p.

TUCCI, C. E. M. Inundações urbanas. In: TUCCI, C. E. M et al. (orgs.). Drenagem urbana. Porto Alegre - RS: Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, 1995.



[1] Graduado do Departamento de Geografia da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT. Professor da Rede Pública Estadual de Ensino do Estado de Mato Grosso.

[2] Graduada do Departamento de História da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT. Professora da Rede Pública Estadual de Ensino do Estado de Mato Grosso.

[3] Bolsista de Iniciação Científica – PIBIC/CNPq e Graduando do Departamento de Geografia da Universidade do Estado de Mato Grosso – UNEMAT.

 

 

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