Jogos: Instrumento Pedagógico no Ensino da Matemática.
Seg, 20 de Agosto de 2007 09:09
Rita de Cássia Contin[1] 
Waldinéia Antunes de Alcântara Ferreira[2] 
  

Temos a finalidade de discutir neste texto a importância do lúdico, e especificamente dos jogos no ato de educar. Nesse sentido abordar as questões históricas é de grande relevância. As relações com o lúdico se fazem presente em diversas áreas do conhecimento, na filosofia, Platão citado por Almeida apud Alves (2001, p.16), diz que “o aprender brincando” era mais importante e deveria ser ressaltado no lugar da violência e da repressão. Considerava ainda que todas as crianças deveriam estudar a matemática de forma atrativa, sugerindo como alternativa a forma de jogo.

 

Observamos na literatura que desde a antiguidade o jogo foi elemento de discussão para o ensino, acreditava-se que por meio do mesmo, o ato de educar pudesse tomar rumos que abrangia a imaginação, a curiosidade e a própria aprendizagem de maneira alegre e eficaz.

 

Ganha vulto em diversos povos, como egípcios, romanos e maias. Para esses povos os jogos tinham a finalidade de ensinar valores, normas e padrões de vida advindos das gerações antecedentes.

           Fazendo um salto na história e buscando elementos mais próximos da nossa realidade, apresentaremos conforme Alves (2001), a existência de tratados didáticos da Companhia de Jesus no Brasil, onde esta acredita que os jogos são aliados do ensino, tanto que sua introdução na Pedagogia da companhia é feita nos escritos que se encontram dentro do Ratio Studiorum[3].

Após ter feito este breve histórico dos jogos na educação, gostaríamos de estabelecer o significado da palavra jogo. De acordo com Negrini ( 1997, p. 44) “ a palavra “jogo” se origina do vocábulo latino iocus, que significa diversão, brincadeira”. Além desta compreensão inclui-se o pensamento de que o jogo é discutido em diversas esferas indo desde movimentos das crianças até ações direcionadas a desportos e práticas educativas que possibilitem a conexão do brincar com o aprender sistematicamente.

 

Este relato introdutório nos demonstra que se o jogo é um elemento de real importância no processo da aprendizagem, é urgente que educadores compreendam-no como prática de desenvolvimento de habilidades na resolução de situações problemas. Nesse sentido, ampliamos nossa reflexão para o desenvolvimento de formação continuada no ensino da matemática. Dizemos que é preciso buscar ações didáticas que subsidiem o trabalho pedagógico de forma que auxilie o educador e os educandos tanto na construção de conceitos matemáticos, quanto no manuseio de instrumentos que possibilitem a compreensão de tais conceitos.

 

Referenciando essa idéia, apontamos a necessidade de um estudo voltado para a implementação de jogos instrumentais no ensino como maneira de desenvolver tais habilidades. Com isso esperamos minimizar, conforme Lara (2003) a crise do ensino da Matemática.

 

Segundo a autora, tal crise está relacionada com “problemas de metodologia de formação de professores, de inadequação dos livros didáticos, de falta de recursos e de conteúdos programáticos” (LARA, 2003, p.9). Acrescentamos a essa discussão a falta de leituras direcionadas à compreensão da aprendizagem da matemática.

 

Estamos denominando o jogo como um elemento possível de ser utilizado nas salas de aula, favorecendo a aprendizagem, uma vez que as crianças ao jogarem, dinamizam o seu intelecto fazendo suposições e criando novas situações com a finalidade de resolver problemas. Nesta ação desenvolvem o raciocínio crítico.

 

O desenvolvimento de atividades lúdicas, como é o caso do jogo na matemática pode desenvolver diversas atitudes comportamentais, entre elas citamos, o companheirismo, o coleguismo, a consciência de grupo, o espírito de competição, a aprendizagem da leitura, quando estes precisam ler as regras para desenvolver o jogo, além do aperfeiçoamento da escrita quando são criadas regras pelos próprios educandos.

 

Nessa dimensão do jogo, as crianças são estimuladas a desenvolver o pensamento numérico e para tal existem diversas maneiras de aplicabilidade do jogo. Alves (2003), destaca quatro tipos de organização didática do jogo. São eles, Jogos de construção, de treinamento, de aprofundamento e estratégicos.

 

O primeiro é caracterizado como manipulação, a criança fica em contato com o material, são jogos desconhecidos para os educandos e que permitem algumas abstrações matemáticas, antes conhecidas apenas pelo professor. “ É possível perceber que os jogos de construção se enquadram como um dispositivo da tendência pedagógica construtivista” (ALVES, 2003, p. 25).

 

Com relação ao de treinamento, podemos dizer que apresenta como maior característica a repetição do mesmo, porém, ao treinar, a criança pode descobrir outros caminhos da resolução dos problemas. Este jogo possibilita que o professor localize algumas dificuldades de aprendizagem das crianças, durante essa situação crianças tímidas podem tornar mais participativas, uma vez que o jogo possibilita ações concretas educativas.

 

O jogo de aprofundamento consiste em aprimorar os conhecimentos. Geralmente é disponibilizado aos educandos com maior maturidade na resolução de suas atividades em sala de aula para que estes desenvolvam estratégias matemáticas lógicas mais apuradas.

 

Por fim, o último jogo diz respeito às estratégias, ou seja, neste tipo de jogo as crianças criam hipóteses e definem estratégias de resoluções altamente utilizando o pensamento divergente.

 

           Conhecendo os tipos de jogos é possível que o professor dê conta de planejar ações didáticas que una o processo de aprendizagem com o conteúdo matemático e o próprio jogo. Assim, o jogo ou a competição é salutar para o desenvolvimento da aprendizagem e neste caso o mesmo não tem a finalidade de medir a competência da resolução dos problemas, separando alunos que são bons ou maus jogadores, mas o jogo é e deve ser visto como elemento que fomenta a aprendizagem, que possibilita condições de pensamento, de descobrir caminhos para a resolução de problemas e ainda que propicie a construção da apropriação da leitura matemática.

 

Finalizando, gostaríamos de abrir os horizontes do jogo falando um pouco sobre a última questão que vem sendo abordada neste texto e diz respeito à competência de ler e escrever como habilidade de todas as áreas. E dizer ainda que nos jogos encontrem diferentes linguagens matemáticas, a oral, a escrita e a visual, quando adotamos uma postura de educadores que se preocupam em estabelecer uma relação de mediadores entre o próprio jogo e a linguagem como estratégias de comunicação.

 

Na circunstância do jogo, mesclando com a linguagem, estamos desenvolvendo a idéia de que de certa maneira o jogo apresenta condições de fazer com que a criança esteja em contato com a criação de pensamentos matemáticos, e aí, participam do processo de criação dentro de seus limites e/ou maturidade. Conforme Carrasco (2006), esse processo não pode ser entendido por nós, educadores, como sendo “exclusividade de mentes especiais, privilegiadas, que retêm conhecimentos especializados em uma determinada área. O encanto e o prazer resultante deste processo devem ser experienciados por todos os indivíduos(p.201)”.

 

Nesse sentido o jogo permite a experienciação, a construção coletiva, o aprendizado de conceitos, o coleguismo e por fim, nos coloca frente a um desafio de melhorar a aprendizagem enfrentando a  crise do ensino da matemática.

 

 

  Referências 

ALVES, Eva Maria Siqueira. A Ludicidade e o Ensino de Matemática: Uma Prática Possível. Campinas, SP, Papirus, 2001.

 

CARRASCO, Lúcia Helena Marques. Leitura e escrita na matemática. NEVES, Iara Conceição Bitencourt. Ler e Escrever Compromisso de todas as áreas. Porto Alegre: Editora da URFGS, 2006.

 

LARA, Isabel Cristina Machado de. Jogando com a Matemática de 5ª a 8ª. São Paulo, Rêspel, 2003.

 

NEGRINE, Airton. Simbolismo e Jogo. In SANTOS, Santa Marli Pires dos (Org). Brinquedoteca o Lúdico em Diferentes contextos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

SOUZA, Jesus Mª. Os Jesuítas e os Ratio Studiorum: as raízes formação de professores na Madeira. Portugal: Universidade da Madeira 2003. Disponível em www.uma.pt/jesussousa/Publicacoes/31OsJesuitaseaRatioStudiorum.PDF.   


[1] Professora Formadora do CEFAPRO/Cáceres, Especialista em Modelagem Matemática e Informática na educação(UNEMAT/UFMT

[2] Professora Formadora do CEFAPRO/Cáceres, Pedagoga Ms. Em Educação(UNEMAT/UFMT)

[3] Documento Pedagógico que trata das instruções relativas a seqüenciação das disciplinas e métodos  de estudos nos colégios e faculdades Jesuítas, publicado em 1599 ( Souza, 2003).

 

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