Uma Comparação entre o Filme Caramuru – A Invenção do Brasil de Guel Arraes e a Crônica Viagem à Terra do Brasil, de Jean de Léry
Qui, 28 de Junho de 2012 14:44

UMA COMPARAÇÃO ENTRE O FILME CARAMURU – A INVENÇÃO DO BRASIL DE GUEL ARRAES E A CRÔNICA VIAGEM À TERRA DO BRASIL, DE JEAN DE LÉRY

 

Ana Paula Rodrigues de Souza

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Ivanete do Nascimento Orlando Dias

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Rudney Aparecido Primavera

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RESUMO: Este artigo tem como objetivo mostrar a forma irreverente e  irônica, como foi tratada a questão do descobrimento do Brasil no filme Caramuru – A invenção do Brasil, usando como base para tal análise a crônica Viagem à terra do Brasil de Jean de Léry. O romance entre o descobridor e a nativa é, de fato, a história do triângulo amoroso entre Diogo, Paraguaçu e sua irmã Moema. Assim, busca-se analisar a questão do descobrimento a partir da Crônica de Léry e o Filme Caramuru de Guel, no sentido de demonstrar a forma que esta questão foi retratada nas duas obras. Uma, de certa forma, extremamente real e a outra de forma cômica. Como embasamento teórico foram utilizados Coutinho(19990, Gancho(2003), Olivieri(1999) entre outros.

 

PALAVRAS- CHAVE: Caramuru. Viagem à Terra do Brasil. Comparação.

 

 

1.     CONTEXTO HISTÓRICO

 

Quando analisamos a palavra descobrimento, pode-se considerá-la nesse caso  contraditória, pois antes da chegada dos descobridores nas terras que futuramente seriam chamadas de Brasil, o país já era habitado pelo povo indígena(seus verdadeiros descobridores).

A partir do dia 22 de Abril de 1500, a data oficial da descoberta do Brasil, vários países tentaram se apoderar do Brasil, para usufruírem de suas especiarias.

Perante esse contexto surge a literatura informativa, depoimentos e relatos das viagens dos descobridores, com intuito de apresentar à corte as terras recém descobertas. Esses textos foram escritos sob a forma de crônicas, diários e cartas, escritos principalmente pelos portugueses. Segundo Gancho as crônicas tratam de:

 

(...) um texto híbrido, nem sempre apresenta uma narrativa completa, uma crônica pode contar, comentar, descrever, analisar. De qualquer forma, as características distintivas da crônica são: texto curto, leve, que geralmente aborda temas do cotidiano. (GANCHO, p.8)

 

Segundo Coutinho(1999), na época do descobrimento as crônicas eram muito procuradas pelos europeus e portugueses, pois queriam informações sobre as terras recém descobertas.

 

2.     ANÁLISE:  O FILME CARAMURU – A INVENÇÃO DO BRASIL DE GUEL ARRAES E A CRÔNICA VIAGEM À TERRA DO BRASIL DE JEAN DE LÉRY

 

 

O filme Caramuru – A invenção do Brasil, do diretor Guel Arraes, como o próprio título já demonstra, ele aborda de forma bem humorada, lúdica e sensual a chegada dos primeiros portugueses à terra que iria ser chamada de Brasil.

Encontramos em Caramuru os seguintes atores e respectivas personagens: Selton Mello(Diogo Alvares, Caramuru); Camila Pitanga(Paraguaçu); Deborah Seco(Moema); Tonico Pereira(Itaparica); Debora Bloch(Isabelle); Luís Mello(Vasco de Atayde); Pedro Paulo Rangel(Dom Jayme) e Diogo Velela(Heitor o degredado). O filme é praticamente uma fábula moderna que toma como base a história brasileira.

A Invenção do Brasil, começa em Portugal, onde um jovem pintos talentoso, Diogo  cria alguns problemas ao tentar embelezar o mapa da expedição de Cabral. Enganado pela sedutora e linda Isabelle, Diogo rouba o mapa e é punido com o degredo. Geralmente as pessoas que vinham deportadas eram pessoas de má índole, ladrões, prostitutas etc...É em meio a essa gente que se encontra Diogo a caminho do Brasil.

Diogo durante a viagem encontra Heitor, um degredado. Que pode ser considerado aos mochileiros de hoje. Heitor assume no filme um papel sátiro com relação ao degredo.

Como aconteceu com muitas caravelas, a de Vasco de Atayde naufraga, mas Diogo consegue chegar a praia. Chegando lá Diogo encontra uma inesperada beleza tropical e também a índia Paraguaçu, que ao invés de sua língua nativa fala o português representando a idealização a raça portuguesa.

 

Tratando o assunto por alto, direi que nossos tupinambás recebem com grande humanidade estrangeiros amigos que os vão visitar, ainda que os franceses e outros daqui que não entendam a língua deles se sintam no começo admirados e assombrados. (OLIVIERE, VILLA, p.72)

 

 

Como podemos perceber já de costume dos índios tratarem bem seus visitantes e com Diogo não foi diferente.

Diogo ao ver a índia falar sua língua e lhe fazer muitas perguntas se assusta (...) cercado por selvagens que me perguntavam “ Marapê – dererê, marapê – dererê, ou seja, Como é seu nome? Como é seu nome? ( o que, para mim, naquela época soava como grego)”. (OLIVIERI, VILLA, p. 73)

Ao longo do filme Guel Arraes faz forte crítica aos portugueses, chega até a mencionar em alguns momentos do filme, o poema camoniano Amor é fogo que arde sem se ver, onde podemos observar a intertextualidade no filme. No momento em que o poema é declamado observa-se na cena a sensualidade associada a uma curiosidade infantil com relação às diferenças étnicas e culturais.

Diogo fica surpreso ao perceber que as mulheres que lá habitavam andavam praticamente nuas, sem pudor algum, totalmente o contrário das mulheres portuguesas, que andavam com muita roupa, sua surpresa maior foi que mesmo as índias usando pouca roupa não eram desrespeitadas pelos homens da tribo.

Segundo Coutinho(1999), Léry em sua crônica se preocupava mais com o homem:

(...) É através do homem, e como conseqüência de sua valorização, que surgem os depoimentos sobre o ambiente exterior. Ele fixa com tal intensidade o ser indígena no seu ambiente natural que – pode-se dizer – projeta a paisagem social e existencial dos Tupinambás (...) (Coutinho, p. 253)

 

O filme transmite a idéia de que a formação do Brasil deu – se de forma libidinosa, como se os descobridores portugueses e as nativas não tivessem outra afinidade que não fosse a prática carnal do sexo, que é evidenciada pelo triângulo amoroso entre Paraguaçu – Diogo – Moema, e também pelo uso irônico da palavra hospitalidade tupinambá, com a qual tratava o sexo, tornando-se piada com vago conteúdo sexual. Analisando esse aspecto chega-se a conclusão de que Diogo ao invés de descobrir a Índia descobre as índias. Em sua crônica Léry cita esse modo com o  qual as índias tratavam os descobridores, como se fosse normal de forma amena sem maldade nenhuma:

 

(...) o pai de família que dá de comer a quem por lá passa – por ele escolhido como hospedeiro (...) deve sentar – se numa rede e ali ficar um pouco de tempo sem nada dizer. Depois disso, as mulheres aproximam – se, põem – se ao redor da rede e, acocoradas com as nádegas no chão, cobrem os olhos com as duas mãos e choram dando boas – vindas à pessoa em questão, dizendo mil coisas em seu louvor. (OLIVIERI, VILLA, p. 75)

 

As formas como as índias se apresentavam a disposição dos descobridores, no filme, acabou assumindo um papel vulgar de prostituição.

Com relação a diversidade da flora, Diogo e Paraguaçu, começam a perceber os diferentes sentidos que uma mesma palavra pode ter, pois algumas palavras que Diogo conhecia em Portugal aqui no Brasil podiam significar algo diferente, o que é evidenciado na passagem em que Paraguaçu oferece manga à Diogo, o mesmo lhe mostra a manga da camisa, Paraguaçu lhe mostra um fiapo de manga(fruta), Diogo arranca um fiapo da camisa e lhe limpa os dentes cheios de fiapo de manga, mostrando à Paraguaçu que aquele também era um fiapo de manga(camisa)

Através do cacique Itaparica, Guel Arraes faz uma crítica  a cultura brasileira mostrando  o bom humor e a tendência a preguiça à preguiça de populações que vivem ao abrigo de uma natureza prodigiosa e não fazem nada para preservá-la. Arraes usa a rede usada pelo povo indígena, para nos mostrar a tendência à comodidade do nosso povo:

 

E tendo essas redes, no mais das vezes, quatro, cinco ou seis pés de comprimento por uma braça de largura mais ou menos, todas possuem em cada ponta uma argola feita também de algodão, à qual os selvagens prendem cordas com que as amarram a alguns pedaços de madeiras postas de atravessado em suas casas, expressamente para esse fim, de onde ficam pendentes no ar. E se vão guerrear ou dormir na mata durante a caçada, ou se dormem à beira do mar ou de rios, nas pescarias, penduram essas redes entre algumas árvores. ( OLIVIERI, VILLA, p. 71)

 

Segundo Léry os índios usavam suas redes para descansar, após um dia inteiro de trabalho ou para dormir a noite, já no filme Caramuru, o uso da rede é ironizado, lá a rede é considerada um descanso para os preguiçosos, como é o caso do cacique que se apresenta deitado na rede e quando Diogo lhe propõe que vendam comida aos descobridores, mesmo podendo ganhar dinheiro o cacique não aceita pois isso lhe acarretará trabalho. Esse episódio vem reforçar a idéia que se tem do índio, sendo este considerado um preguiçoso.

Também temos retratado no filme a questão da escravidão, onde o cacique oferece à Vasco de Atayde o litoral brasileiro em troca de um espelho.

O paraíso para Diogo não dura muito tempo, logo descobre que virará refeição da tribo tupinambá. Para Léry esse ritual de antropofagia do povo tupinambá está ligado a heterogeneidade cultural da sociedade indígena, sendo assim adota uma visão racional desse fato. Diogo por sua vez não é tão racional assim, ao sentir – se acuado por parte dos indígenas acaba fugindo.

 

Tendo feito uso da arma diante dos selvagens, mostraram – se estes muito espantados da detonação, e curiosos daquele maravilhoso artifício, no qual o estrangeiro guardava o trovão e podia manejá-lo contra os inimigos. (POMBO, p.26)

 

Através desse feito Diogo Alvares recebe o nome de Caramuru, filho do trovão. A respeito do medo que Diogo sentia dos tupinambás, Léry diz:

 

(...) por ignorar os costumes deles, eu acreditava correr perigo - ,pode – se concluir que tudo o que eu disse sobre a lealdade desses selvagens para como amigos continua sendo verdadeiro e indubitável, ou seja, que eles sentiriam grande pesar em desagradá – los. ( OLIVIERI, VILLA, p. 81)

 

Diogo após receber o nome de Caramuru se tornou rei dos tupinambás e alcançou a grande fama e prestígio entre os índios. Depois de algum tempo cansado da vida na tribo Diogo volta à Portugal, Paraguaçu completamente apaixonada por ele o acompanha, porém ao chegar em Portugal se defronta com grandes desafios.

Percebendo toda hipocrisia existente na sociedade portuguesa Diogo, agora casado com Paraguaçu, volta com a moça ao Brasil, dando continuidade à sua história de amor e volta a ser rei da tribo dos tupinambás.

 

 

 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O filme: Caramuru – A invenção do Brasil e a crônica de Léry não apresentam só fatos distintos, elas possuem também semelhanças, pois não podemos afirmar, com veracidade, até que ponto a idéia do descobrimento é verossímil ou não.

Como pudemos observar, Caramuru trata das questões do descobrimento de forma bem humorada, um tanto irônica, já a crônica nos transmite os fatos da forma que “ocorreram”.

 

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARRAES, Guel. Filme: Caramuru – A invenção do Brasil.

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. 5 ed. São Paulo: Global, 1999.

GANCHO, Vilares Cândida. Como analisar narrativas. 7. Ed. São Paulo: Ática 2003.

OLIVIERI, Antonio Carlos, VILLA, Marco Antonio. Cronistas do descobrimento. São Paulo: Ática, 1999.

POMBO, Rocha. História do Brasil. 19 ed. São Paulo: Proprietaria.1918

 

 

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