Experiência Pedagógica: Ensinar Brincando na Educação Infantil
Qui, 06 de Junho de 2013 17:58

EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA:

ENSINAR BRINCANDO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Luciana Soares da Silva Garcia [1]

Resumo: O presente artigo visa analisar a importância do brincar no desenvolvimento e aprendizagem na educação infantil levando-se em consideração as diversas fases do desenvolvimento: os conhecimentos prévios adquiridos em seu ambiente sociocultural, seus costumes e valores, suas hipóteses e curiosidades, questionamentos e forma de entender e explicar as coisas. Tem como objetivo conhecer o significado do brincar, conceituar os principais termos utilizados para designar o ato de brincar, tornando também fundamental compreender o universo lúdico, por meio do qual a criança se comunica consigo mesma e com o mundo, aceita a existência dos outros, estabelece relações sociais, constrói conhecimentos, desenvolvendo-se integralmente, e ainda, os benefícios que o brincar proporciona no ensino-aprendizagem infantil. Partindo desse pressuposto, o presente estudo permitirá refletir sobre um aspecto muito importante da vida – a infância. Portanto, para realizar este trabalho, utilizamos de pesquisa bibliográfica.

Palavras-chave: Brincar. Aprendizagem. Desenvolvimento. Infância.

1. Introdução

Brincar é uma importante forma de comunicação, é por meio deste ato que a criança pode reproduzir o seu cotidiano, num mundo de fantasia e imaginação. O ato de brincar possibilita o processo de aprendizagem da criança, pois facilita a construção da reflexão, da autonomia e da criatividade, estabelecendo, desta forma, uma relação estreita entre jogo e aprendizagem.

Os brinquedos são elementos essenciais para o desenvolvimento e aprendizagem da criança. Desde bebê, a brincadeira constitui-se em uma atividade prazerosa e rica em aprendizados. Assim sendo, falar da infância é falar de um momento mágico, onde os sonhos tornam-se possíveis.

Para definir a brincadeira infantil, ressaltamos a importância do brincar para o desenvolvimento integral do ser humano nos aspectos físico, social, cultural, afetivo, emocional e cognitivo. Para tanto, se faz necessário conscientizar os pais, educadores e sociedade em geral sobre a ludicidade que deve estar sendo vivenciada na infância, ou seja, de que o brincar faz parte de uma aprendizagem prazerosa não sendo somente lazer, mas sim, um ato de aprendizagem, e ainda a importância desta ludicidade nas intervenções e prevenções de problemas de aprendizagem.

As atividades lúdicas permitem à criança enfrentar desafios e problemas e as mesmas são fundamentais no contexto da Educação Infantil.  Segundo Piaget (1998, p.84), “a criança exploradora/pesquisadora constrói o seu conhecimento pela experiência, com ênfase na interação indivíduo-ambiente”.

Neste contexto, o brincar na educação infantil proporciona a criança estabelecer regras constituídas por si e em grupo, contribuindo na integração do indivíduo na sociedade. O brincar promove alegria e satisfação a todos os pequeninos em qualquer parte do mundo. Busca-se, então, com este estudo, refletir sobre a predominância do lúdico no contexto infantil e sua importância no processo de desenvolvimento e aprendizagem. É importante perceber e incentivar a capacidade criadora das crianças, pois esta se constitui numa das formas de relacionamento e recriação do mundo, na perspectiva da lógica infantil.

2. Definições sobre o ato de brincar

Ao longo da história da humanidade, foram inúmeros os autores que se interessaram, direta ou indiretamente, pela questão do brincar, do jogo, do brinquedo e da brincadeira. O lúdico é para a criança um dos momentos mais prazerosos. Tais momentos devem ser constantes na vida dos pequeninos e fazer parte também na dos adultos. Para as crianças, quando as brincadeiras alcançam-nas em seus diversos aspectos, garantem-lhes, aprendizagem e desenvolvimento, uma vez que estão em processo de formação.

Vygotsky (1987, p.144) aponta que, “o brincar como uma atividade humana criadora, e que  a imaginação e a fantasia interligam-se, gerando novas possibilidades, novas ações, novas formas de construir relações sociais com outras crianças e até mesmo, com adultos”.

Do ponto de vista de Oliveira (2000, p.22), “o brincar não significa apenas recrear, mas sim desenvolver-se integralmente. Caracterizando-se como uma das formas mais complexas que a criança tem de comunicar-se consigo mesma e com o mundo”, ou seja, o desenvolvimento acontece através de trocas recíprocas que se estabelecem durante toda sua vida. Todavia, através do brincar a criança pode desenvolver capacidades importantes como a atenção, a memória, a imitação, a imaginação, ainda propiciando à criança o desenvolvimento de áreas da personalidade como afetividade, motricidade, inteligência, sociabilidade e criatividade.

Kamii (1980, p.127) coloca que, “o valor do conteúdo de um jogo deve ser considerado em relação ao estágio de desenvolvimento que se encontra a criança, da maneira  de como a criança obtém o conhecimento e raciocina”. Sendo o lúdico um eixo importante na infância em todas as épocas, diferentes gerações e  em  contextos sociais e históricos distintos, Chateau faz uma importante observação:

“Suponhamos que, de repente, nossas crianças parem de brincar,  que os pátios de nossas escolas fiquem pequenos, que não tivéssemos mais perto de nós este mundo infantil que faz a nossa alegria e o nosso tormento, mas um mundo triste de pigmeus que poderiam crescer, mas que conservariam por toda a sua existência a mentalidade de pigmeus, de seres primitivos. Pois é pelo jogo, pelo brinquedo, que crescem a alma e a inteligência. É pela tranqüilidade, pelo silêncio – pelos quais os pais às vezes se alegram erroneamente – que anunciam freqüentemente no bebê as graves deficiências mentais. Uma criança que não sabe brincar, uma miniatura de velho, será um adulto que não sabe pensar”… (CHATEAU, 1987, p.10).

 

A criança, ao brincar, não pensa em nenhuma outra coisa a não ser a brincadeira. Nela, ela cria, inventa, constrói o que quiser ser. Pereira diz:

“A atividade lúdica propicia uma experiência de plenitude: quando nos entregamos a ela, nos envolvemos por completo, estamos inteiros, plenos, flexíveis, alegres, saudáveis [...] Brincar, jogar, agir ludicamente, exige uma entrega total do ser humano, corpo e mente ao mesmo tempo” (PEREIRA, 2002, p.9).

 

Para Kishimoto (2002, p. 146), o brinquedo é diferente do jogo, oferece  “uma ligação intima com a criança, na ausência de um sistema de regras que organizam sua utilização”.

Conforme Andrade (1994, p.14), “o brinquedo propõe à criança um mundo do tamanho de sua compreensão”. Maria Montessori também valoriza os jogos como uma ação livre. Ela difundiu um método investigativo e de trabalho em que as crianças agem com liberdade. Para Montessori (1965, p.57), faz-se necessário “que a escola permita o livre desenvolvimento da atividade da criança para que a pedagogia possa agir”.

3. Educação e Ludicidade

Na educação de modo geral, e principalmente na Educação Infantil o brincar é um potente veículo de aprendizagem experiencial, visto que permite, através do lúdico, vivenciar a aprendizagem como processo social. A proposta do lúdico é promover uma alfabetização significativa na prática educacional, é incorporar o conhecimento através das características do conhecimento do mundo. O lúdico promove o rendimento escolar além do conhecimento, oralidade, pensamento e o sentido.

Compreender a relevância do brincar possibilita aos professores intervir de maneira apropriada, não interferindo e descaracterizando o prazer que o lúdico proporciona. Portanto, o brincar utilizado como recurso pedagógico não deve ser dissociado da atividade lúdica que o compõe, sob o risco de descaracterizar-se, afinal, a vida escolar regida por normas e tempos determinados, por si só já favorece este mesmo processo, fazendo do brincar na escola um brincar diferente das outras ocasiões. A incorporação de brincadeiras, jogos e brinquedos na prática pedagógica podem desenvolver diferentes atividades que contribuem para inúmeras aprendizagens e para a ampliação da rede de significados construtivos tanto para crianças como para os jovens.

Entendendo a infância como uma etapa crucial  para o desenvolvimento em todos os seus aspectos, a LDB orienta que a educação infantil por ser um período essencial e marcante na vida da criança deve ser orientada por profissionais capazes de compreender todas as nuances do desenvolvimento cognitivo, afetivo e biopsicossocial. Para isso, é primordial que a formação desse profissional seja a nível superior em Pedagogia.

Para Vygotsky (1998, p.2), “o educador poderá fazer o uso de jogos, brincadeiras, histórias e outros, para que de forma lúdica a criança seja desafiada a pensar e resolver situações problemáticas, para que imite e recrie regras utilizadas pelo adulto”. O lúdico pode ser utilizado como uma estratégia de ensino e aprendizagem, assim o ato de brincar na escola sob a perspectiva de Santos (2002), está relacionada ao professor que deve apropriar-se de subsídios teóricos que consigam convencê-lo e sensibilizá-lo sobre a importância dessa atividade para aprendizagem e para o desenvolvimento da criança.

A essas ideias associamos nossas convicções sobre o brincar como prática pedagógica, sendo um recurso que pode contribuir não só para o desenvolvimento infantil, como também para o cultural. Brincar não é apenas ter um momento reservado para deixar a criança à vontade em um espaço com ou sem brinquedos e sim um momento que podemos ensinar e aprender muito com elas. A atividade lúdica permite que a criança se prepare para a vida, entre o mundo físico e social. Observamos, deste modo que a vida da criança gira em torno do brincar, é por essa razão que pedagogos têm utilizado a brincadeira na educação, por ser uma peça importante na formação da personalidade, tornando-se uma forma de construção de conhecimento.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A rotina do aluno de Educação Infantil deve levar em conta o contexto social que o envolve. Compreender o universo infantil exige habilidade, conhecimento e prática.  A avaliação da prática pedagógica nesse contexto requer uma constância, visto que se trata de pessoas em processo de formação. Parece fácil e óbvio atender a esse público, mas é mero engano. Exige-se muito mais do educador do que apenas conhecimento teórico. É necessário que se tenha com clareza o que se busca desenvolver no aluno.

Vemos que a ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade, mas principalmente na infância, na qual ela deve ser vivenciada, não apenas como diversão, mas com objetivo de desenvolver as potencialidades da criança, visto que o conhecimento é construído pelas relações inter-pessoais e trocas recíprocas que se estabelecem durante toda a formação integral da criança. Portanto, a introdução de jogos e atividades lúdicas no cotidiano escolar é muito importante, devido a influencia que os mesmos exercem frente aos alunos, pois quando eles estão envolvidos emocionalmente na ação, torna-se mais fácil e dinâmico o processo de ensino-aprendizagem.

O planejamento das ações pedagógicas na infância deve constituir-se um pilar para o processo de ensino e aprendizagem da criança. Os conteúdos pedagógicos que, muitas vezes, são colocados como prioridades necessitam ser revistos, uma vez que as crianças são seres espontâneos, dotados de várias habilidades.

A necessidade das brincadeiras no contexto infantil e até mesmo na vida dos adultos produz diversos significados que estão além das atividades escolares sistematizadas. A essência do brincar supera expectativas e proporciona liberdade. Dessa forma,  espera-se que a escola fundamente sua prática de forma a atender as necessidades, de forma integral, desse público que é mestre nessa arte: brincar!

 

5. Referências Bibliográficas

 

ANTUNES, Celso. O jogo infantil: falar e dizer, olhar e ver, escutar e ouvir. Petropolis, RJ: Vozes 2003 fascículo 15.

 

BAQUERO, Ricardo. Vygotsky e a aprendizagem escolar. Trad. Ernani F. da Fonseca Rosa. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

 

BRASIL, Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional –  Lei nº 9.394/1996.

 

BRASIL, Ministério da Educação. Referencial Curricular para a Educação

Infantil. Vol. 3, 1998.

 

CARVALHO, A. M. C. et al. (Org.). Brincadeira e cultura: viajando pelo Brasil que brinca. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.

 

CHATEAU, J. O jogo e a criança. São Paulo: Summus, 1987.

 

CUNHA, Nylse Helena Silva. Brinquedo: linguagem e descoberta. Petrópolis – RJ: Vozes, 2004.

 

KAMII, S. Devies. Jogos em grupo na educação infantil. 1980, 2.ed. MAUDIRE, Paulette.

 

KISHIMOTO, Tizuco Morchida. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 2002.

 

SANTOS, Santa Marli Pires dos. O lúdico na formação do educador. 5 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

 

VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes Editora LTDA, 1998.

 

PIAGET, J. A psicologia da criança. Ed Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

 

WEISS, Luise. Brinquedos & engenhocas: atividades lúdicas com sucata.  São Paulo,  Scipione, 1997. (Pensamento e ação no magistério).



[1] Professora Luciana Soares da Silva Garcia – Pedagoga e especialista em Lingüística, com ênfase em Letramento. Email: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

 

Agenda da Educação

Julho 2014
D 2a 3a 4a 5a 6a S
29 30 1 2 3 4 5
6 7 8 9 10 11 12
13 14 15 16 17 18 19
20 21 22 23 24 25 26
27 28 29 30 31 1 2

Enquete

Que tipo de Formação Continuada você gostaria de receber do CEFAPRO?
 
Free template 'Feel Free' by [ Anch ] Gorsk.net Studio. Please, don't remove this hidden copyleft!